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sábado, 5 de novembro de 2005

Às três da manhã

Texto de Emoção forte para a disciplina Língua Portuguesa I, do I Período de Jornalismo da UNIT

Em uma noite de 99, após ter ficado até as 22 horas no colégio, me dirigi ao meu escritório que ficava no centro da cidade. Eram vários os trabalhos acumulados, os prazos de entrega estouravam, tinha compromisso com diagramações, projetos de comunicação visual e impressos que não poderia esperar, aquela seria uma noite que eu, certamente, iria atravessar a madrugada frente a um computador. Como companhia, minhas seletas musicas preferidas e meu “Free Box”, velho companheiro de guerra.

Eram três horas da manhã, com nenhum pingo de sono, distraído como o enorme montante de trabalho e também dando uma escapadinha até a internet, prossigo em meu sossego, só o silêncio da noite sendo quebrado de leve pela melodia que tocam as caixinhas do computador. Nem lembro que musica era, uma pena, só sei que ela foi interrompida por uma súbita pancada na porta de correr da frente. Levantei da cadeira e corri para a abertura que ligava a sala que eu estava à recepção do escritório, no intuito de saber qual o motivo do barulho, me deparei com a porta entreaberta que eu esquecera daquele jeito, junto com minha surpresa, entraram três indivíduos armados, não houve dúvida alguma de que se tratava de um assalto e de que a desvantagem de três para um não permitiria nenhum tipo de reação de minha parte.

Dois dos assaltantes eram muito parecidos em sua baixa estatura e cabelos encaracolados, usando do mesmo corte ou a ausência de um, tinham rostos muito parecidos, sem dúvida eram irmãos, talvez os gêmeos que foram executados pela polícia num matagal dois anos depois, acusados de truculentos assaltos a ônibus. O terceiro, um negro de quase dois metros de altura que pela postura diante dos outros dois, tratava-se somente de um auxiliar, porém, sendo o último a chegar, terminara de abrir a porta de correr. O primeiro a entrar, tentando encobrir o rosto já revelado com a camiseta, apontou a arma para mim, ordenando que eu me encostasse à parede da saleta onde trabalhava.

Já na posição que me impuseram, com o cano frio da arma encostado em minha nuca, ouvia os outros dois meliantes revirando minhas coisas em busca de pertences de valor. Senti tremer a calibre 22, não porque se apoiava em minha fervilhante cabeça, mas pela enorme insegurança que o bandido transmitia no que estava fazendo, inclusive em suas palavras, gaguejando ao perguntar a todo momento onde eu escondera a arma que ele acreditava eu ter. Senti minha vida por um triz, pois um simples reflexo daquelas mãos nervosas, poderiam estilhaçar meus miolos contra a parede. Nunca tinha experimentado tal situação, jamais tinha sentido até aquele momento, o quanto poderia ser fácil morrer por um simples ato de outro vivente.

As chaves do carro de minha mãe, estacionado em frente ao escritório, estavam penduradas na minha cintura, eu, a todo momento, tentava com a mão abafar o tilintar que elas faziam a todo movimento, não queira que soubessem que o carro estava comigo. Não houve jeito, acho que num jogo de sorte, me pediram às chaves que eu tivera mantido em sigilo até o momento. Preocupado muito mais com a decepção que causaria a minha mãe em deixar que levassem seu bem mais precioso, adquirido à custa de muito trabalho, tentei, ainda com a arma na cabeça, negociar, pedir que não levassem o carro, pois não era meu. Mas sem ter muita alternativa, acreditei na palavra do meliante que dissera que só queria ver se existia algum bem de valor dentro do carro.

Pois bem, ainda ali, sob a mira do tiro a queima-roupa de um, ouvia outro ir até o carro e revistá-lo, o terceiro ainda permanecia, em vão, procurando e revirando coisas que lhes interessassem no escritório em gavetas, caixas, envelopes, pastas...

Minha angustia chegara ao fim, a arma saíra da minha cabeça, mesmo assim, permaneci por alguns segundos encostado contra a parede, por ordem do bandido. Ao sair desta posição, pude ver um deles jogando as chaves do carro sobre o telhado e gritando do lado fora para que eu não chamasse a polícia, senão, eles voltariam.

Pronto, acabara o tormento, fiz um rápido reconhecimento da bagunça que eles deixaram e vejo que nada estava faltando. Não levaram nada além dos R$ 12 que tinha guardado na carteira, o isqueiro e meu cigarro, este, o que eu mais necessitava naquele momento de extremo nervosismo, vício filho-da-puta!