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quarta-feira, 25 de agosto de 1999

Entrevista - O álcool na adolescência

O Dr. Eduardo Pimenta, que é presidente do Grupo Amorexigente, de recuperação de dependentes em drogas e entorpecentes, fala um pouco sobre a dependência alcoólica, efeitos nocivos e prevenção deste mal que assola nossa sociedade, despercebido por ser liberado e se tratar de um vício que faz parte da nossa cultura.

Fac – Todos nós sabemos, até certo ponto, o quanto o álcool prejudica nosso organismo, mas em particular, o que as bebidas alcoólicas causam num organismo ainda em desenvolvimento, no corpo de crianças e adolescentes?

Dr. Eduardo – Do ponto de vista do organismo, a criança ou adolescente estão em constante desenvolvimento, por isso, quando se tornam dependentes do álcool, estarão prejudicando este desenvolvimento na parte esquelética, nos reflexos e de alguns órgãos que se tornam alvo, como o estômago, fígado e cérebro. O cérebro é o alvo principal do álcool, porque ele é responsável pelas mudanças de comportamento. É comprovado por estudos sobre toxicologia que o jovem em uma fase inicial no alcoolismo tem uma perda de reflexos significante, posteriormente, com uma maior dependência, ele sofre alterações de memória e inteligência, porque ocorre uma redução drástica de células nervosas, o que traz conseqüências irreparáveis, que mesmo após a recuperação de anos de dependência, persistem com dificuldades na fala, na memorização, o que prejudica muito na aprendizagem e no seu dia a dia.

Fac – E no aspecto psicológico, o que muda na cabeça de um jovem alcoólatra?

Dr. Eduardo – Como trabalho com toxicologia, com pessoas que são dependentes, acho que o mais importante é o aspecto psicológico. O álcool provoca uma mudança importante no comportamento da pessoa, ela perde toda a sua socialização, distancia-se da família, se torna triste e agressiva. Por isso o lado psicológico se torna importante no problema do álcool, porque avaliando a mudança de comportamento é que o especialista traça a melhor forma de tratamento para curar este vício.

“...toda bebida, independente
do teor alcoólico, é viciante e
numa maneira repetitiva ela
já pode trazer dependência.”

Fac – É certo dizer que algumas bebidas alcoólica prejudicam mais que as outras, ou todas são prejudiciais da mesma forma?

Dr. Eduardo – Sempre se diz tanto em relação ao álcool quanto as drogas: “Ah, esta bebida é mais fraca, aquela que é mais forte”. Mas no ponto de vista toxicológico isso não existe, pois toda bebida contem o álcool que tornará a pessoa dependente ou não. Então é importante explanar para os jovens que toda bebida, independente do teor alcoólico, é viciante e numa maneira repetitiva ela já pode trazer dependência.

Fac – Na sua opinião, o que leva os jovens ao mundo do alcoolismo? O aspecto cultural ajuda? E a influência da mídia eletrônica?

Dr. Eduardo - Trabalhando com este problema do álcool a mais de 8 anos, tenho a opinião de que são vários os motivos que levam os jovens ao álcool. O fator do ócio, jovens que não procuram o que fazer, não trabalham, não estudam, não encaram a vida de frente, é um motivo que colabora, outro é o fator próprio da juventude da curiosidade de experimentar. Mas o fator preponderante, sem dúvida nenhuma, é o cultural. Antigamente só depois de uma certa puberdade é que o jovem entrava em contato com o álcool, hoje em dia a permissividade é muito grande no meio da juventude, o que torna muito fácil o acesso destes jovens ao álcool. É claro que existem outros fatores pessoais, de problemas de família, mas o fator cultural é o principal, tanto que álcool, que é a droga mais consumida no mundo, é liberado em qualquer sociedade de uma maneira despreocupada com suas conseqüências. Como é liberado e faz parte de nossa cultura, é lógico que a mídia vai expor isso, é o que se vê nas novelas e programas de televisão, onde se bebe, onde se torna regra todo tipo de bebida e é isso que é mostrado para nossos filhos, para a juventude. O que vai, logicamente, interferir na formação de qualquer jovem.

“...o jovem tem que entender
que ele precisa se curar...”

Fac – A família e os amigos, que sempre entram como vilões nesta história, qual é o papel para reverter a situação do alcoólatra?

Dr. Eduardo – Uma grande preocupação que se tem como o vício é a família, nunca se diz que existe um jovem alcoólatra, normalmente o que se encontra é uma família alcoólatra. O jovem alcoólatra traz tanto transtorno para o pai, para mãe, que toda família fica desestruturada, então é preciso resgatar todos estes valores familiares perdidos, para que a própria família possa reverter a situação deste viciado, porque uma família depressiva nunca poderá ajudar este jovem. Outro fator importante é que o jovem tem que entender que ele precisa se curar, não adianta só a família querer recuperar o alcoólatra se ele não quer. Também é preciso que a sociedade, em geral, veja o alcoólatra com outro olhar, não adianta ver um alcoolizado jogado em uma calçada ou praça e chama-lo de vagabundo, de safado, que na realidade o alcoólatra é um doente e que no fundo não precisa de crítica alguma, é uma pessoa que precisa de ajuda e se a família não faz, a sociedade deveria fazer este papel de ajudar este doente, porque existe tratamento, existem formas de ajudá-lo, de uma maneira ou de outra.

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